Peculiariedades #2 – a folha de coca

Há hábitos diferentes dos nossos em todo o lado, alguns chamam-nos à atenção pela sua particularidade. Será normal mascar folhas de coca?

Atualizado em janeiro de 2026

No primeiro artigo sobre hábitos peculiares falámos do mate, “chá” bebido por argentinos, paraguaios, alguns brasileiros e alguns chilenos. Encontrámos na Bolívia mais um hábito peculiar diferente dos nossos. Na Bolívia e Perú planta-se coca. Para além de plantar coca, são países que têm montanhas e cidades estabelecidas em altitude. A altitude pode dar mal-estar a quem não está habituado, desde dores de cabeça a dificuldades em respirar, e até sintomas mais graves, devido à falta de oxigénio. Nestes países pensa-se que a folha de coca ajuda a combater esse mal-estar, daí que os guias andem sempre acompanhados das folhas.

A folha é usada desde o tempo dos incas, porque é supressora da fome e da fadiga, permitindo viajar com menor quantidade de comida. Hoje em dia os nacionais usam-na como nós usamos as pastilhas ou rebuçados.

Quando falamos da coca, planta, estamos a falar da mesma coca que dá origem à cocaína, droga, mas aqui, em folha, é perfeitamente legal e sem qualquer conotação negativa. No entanto não recomendamos que saiam dos países da América do Sul com sacos de folhas.

folha de coca

Nossa experiência

Nós mascámos durante o tour de 3 dias do Atacama para o Salar de Uyuni. Mesmo assim a Raquel teve dores de cabeça ao atingirmos os 5000m de altitude.

Voltámos a mascar e beber chá em La Paz e novamente em Cusco.

Mascar a folha não é agradável, porque é uma folha de planta, já o chá é agradável. Podem optar por rebuçados se preferirem, mas não sabemos se são igualmente eficazes.

Coca na Europa

Os espanhóis levaram a folha para a Europa, onde durante muito tempo se extraiu e utilizou a cocaína sem se conhecerem os efeitos de dependência. As folhas de coca terão chegado à Europa por volta de 1600. Em 1855 isolaram-se os compostos e transformou-se em sais de cloridrato de cocaína, o pó branco conhecido.

A cocaína é um alcalóide existente na planta, que é extraído através da utilização de outros químicos, para depois ser vendida como droga, refinada (a versão não salina é o crack). A cocaína existente na folha mascada ou em infusão é mínima. Por isso, falar em consumo de cocaína através do consumo da folha é quase absurdo e o consumo de folhas não causa dependência.

A cocaína foi utilizada em vinhos, na coca-cola, como substituta da morfina, como medicamento, em tabaco e afins. Freud era fã, utilizava para tratar dependência de opioides. E o que seriam hoje farmácias vendiam a cocaína livremente, numa sociedade que desconhecia os seus efeitos.

Hoje já se conhecem os efeitos e reconhece-se na dependência de heroína e cocaína uma doença para toda a vida e cujo tratamento é difícil.

Como se utiliza

A folha de coca utilizada tanto para mascar e em chá é a folha seca, sendo vendida já seca em saquinhos. Utiliza-se de várias formas:

  1. Mascar – colocar cerca de 8 a 10 folhas na boca, dizem que se podem usar até 20 folhas (há quem retire todo o caule, há quem as dobre). Deixá-las passear pela boca sem morder (se as morderem vão ficar com pedaços nas gengivas e entre os dentes difíceis de tirar). Vão sentir o sabor da folha misturado na saliva e aparentemente isso chega para fazer efeito;
  2. Mascar com um “catalisador” – mesma forma, mas acrescentar uma pasta preta (cinza de casca de cacau, pelo menos foi o que percebemos, mas também pode ser bicarbonato de sódio). Este catalisador vai ativar o efeito das folhas e pelos vistos dá um efeito de dormência na boca. A nossa experiência não foi a melhor, tendo um efeito mais “queimado” do que de dormência;
  3. Infusão – colocar as folhas numa chávena e acrescentar água fervida, tal como um chá;
  4. Outras aplicações – encontramos em rebuçados, cerveja, basicamente usam para tudo…

A folha de coca é vendida em pequenas lojas ou na rua. Na Bolívia, Perú e Colômbia pode-se circular com dois quilos de folha dentro de cada país.

A plantação é legal e a sua origem é boliviana e peruana. O ex-presidente da Bolívia (2006-2019) e produtor de coca, Morales, conseguiu provar ao resto do mundo que plantar coca não tem nada a ver com ser produtor de cocaína, e conseguiu que a atividade fosse respeitada.

No Perú, os agricultores recebem muito pouco pelas pelas folhas, portanto disseram-nos que são aliciados pelos cartéis de droga para a venda para exportação. Não percebemos nada disto, mas pelo que nos explicaram no Inka Jungle Trek, o Perú não vende cocaína, vende apenas as folhas, teoria contrariada posteriormente na Colômbia, conforme lerão de seguida.

O consumo de cocaína dentro do Perú é baixo e não há violência associada ao narcotráfico. Aliás, na Bolívia e no Perú, como países mais tradicionais, são utilizados métodos alternativos naturais, mais próximos das raízes ancestrais destes países. Decidimos falar nisso no artigo do xamã, apesar de não ser do nosso interesse e não termos opinião formada sobre o assunto. As “viagens” com ayahuasca guiados por um xamã são legais nos dois países e neste momento já são uma atividade turística.

Chegados à Colômbia recebemos outra versão da história. Que o Perú produz cocaína e já partilha o pódio com a Colômbia como um dos maiores produtores. A eles juntam-se a Bolívia e a Venezuela. Apesar da planta ser andina já é possível plantar coca noutras regiões como na América Central, como Guatemala, Honduras e Venezuela.

Na Walking Tour de Medellín ouvimos uma turista perguntar o porquê de não legalizar a atividade, pois havia países onde era legal o consumo, como Portugal, e corria bem. Ficámos de queixo caído. Portugal? Percebemos que ela afinal queria dizer despenalização e mesmo assim sem estar muito informada sobre o assunto, demonstrando que há muita ignorância neste campo. Na nossa opinião, comparar países produtores com países consumidores não faz sentido, porque o problema é totalmente distinto. Depois, sendo o consumo ilegal, dificilmente se poderá legalizar a produção. E a Colômbia foi sinónimo de violência essencialmente devido ao narcotráfico e ao poder que este deu aos cartéis e guerrilhas. Portanto, acima de tudo, a Colômbia quer reduzir os eventos violentos associados à droga, sabendo que enquanto houver procura, vai existir gente que arrisca a produção.

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6 Responses

    1. Também achamos que sim. Não estamos de todo a incitar o transporte de folhas para o Brasil ou outro país. Queremos só falar neste hábito da Bolívia e do Peru que não conhecíamos.

    1. Eder, se calhar não somos a melhor pessoa para perceber se o que aconteceu contigo é normal ou não. Nós até somos um pouco cépticos, sabemos que não sofremos com a altitude, mas mascar as folhas de coca não foi o nosso único cuidado. Não conseguimos garantir que foi pelas folhas, mas respeitamos as crenças tradicionais e quisemos experimentar. Acabámos por não mascar muito e preferir beber em chá.

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