FESTA DE SÃO GONÇALINHO – AVEIRO (PORTUGAL)

Gostamos de Aveiro. É casa, família, comida, amigos e muita cultura. Para a Raquel é também infância e academia, festas e feira de março. Uma das coisas que queria muito apresentar ao Tiago era a festa de são Gonçalinho. Sabemos que, tal como o Tiago, muita gente ainda não conhece a festa e as suas peculiaridades. Os moldes em que é feita a celebração é o que a torna única. Nós apenas ouvimos falar de um evento parecido em Portugal: em Aldeia Viçosa, o Magusto da Velha, o que prova que estamos perante um acontecimento quase único.

Para nós, a festa tem apenas intenções de folia, preservação da cultura e tradições portuguesas, sendo por isso que escrevemos sobre ela. Mas é um evento, mais que folclórico, religioso.

Quem era o santo?

São Gonçalo viveu entre os séculos XII e XIII e morreu em Amarante, onde existe uma capela que lhe é dedicada. Mas em Aveiro foi tratado como menino, são Gonçalinho. Pensa-se que nasceu em Tagilde, Vizela, em 1190. Enquanto padre esteve colocado em Vizela, passou por Roma e Jerusálem. Oficialmente não é santo, só beato, não foi canonizado, mas isso pouco importa a quem lhe tem fé. A primeira igreja que lhe foi dedicada fica em Amarante, mas também em Aveiro há uma capela e festa devota. É no bairro Beira-Mar, de pescadores, que o santo ganha devotos pelos seus poderes de curandeiro de doenças ósseas e de casamenteiro. Tanto em Amarante como em Beira-Mar, o santo é mais que casamenteiro, também resolve impotências masculinas e arranja marido a viúvas. Um santo muito fecundo. Ainda hoje, é comum fazerem-se promessas à procura de protecção e fertilidade. São essas promessas cumpridas que, em Aveiro, tomam a forma de cavacas. A cavaca é um pão duro e doce, feito com ovos, farinha e açúcar. Representa o pão com que o santo alimentou tantos leprosos.

Casamenteiro, curador de doenças de ossos, tocador de viola, benfeitor, dançarino, milagreiro, tira os encravanços do peito sofrido, as verrugas da alma encarquilhada de dor, as maleitas do corpo enfermo, enfermeiro, médico, criador de vida, goza da fama de casamenteiro e procriador

Revista Internacional de Folkcomunicação – Volume 1 – 2011

O que é a Festa de são Gonçalinho?

Em janeiro festeja-se o santo durante vários dias (5 dias, sempre incluindo o dia 10), com missas, arruadas, procissões, barraquinhas de comida, concertos e… CAVACAS! E é aqui que esta festa se torna única. As cavacas, ao som do sino, voam do topo da capela de são Gonçalinho para um largo cheio de caçadores de cavacas. O atirar das cavacas é o símbolo da bondade do santo que alimentava os necessitados. Dizem que a tradição começou com as famílias abastadas da cidade, que subiam à capela para atirar cavacas aos pobres. O hábito manteve-se e virou festejo do bairro. Na festa também se faz a entrega do ramo (Festa do Ramo) e a Dança dos Mancos, dentro da capela.

A capela fica no largo são Gonçalinho, em Vera Cruz. Tem forma hexagonal e é de 1714, não sendo a única igreja com este formato na cidade. É uma capela pequena, que se torna minúscula nas festas. Pela escadaria interior, em caracol, chega-se ao parapeito da igreja, onde se toca à sineta e se atiram as cavacas. No largo destaca-se uma escultura de Paulo Neves, ali colocada para festejar os 300 anos da capela, em 5 de outubro de 2013. Abracem a escultura e serão vocês os abraçados.

A festa tem mordomos, todos devotos, bem trajados, vestindo um gabão castanho. Quem conhece a cidade vai reconhecer o gabão. Esta peça também faz parte do traje académico da cidade, mas, nesse caso, em preto. São eles que recebem encomendas de cavacas e as entregam na festa. São eles que cantam nos bares do bairro a são Gonçalo. Muitos foram apresentados ao santo pelos avós, outros foram com os pais, bem pequeninos, ao parapeito da capela atirar cavacas. Podem ler sobre o trabalho deles na página oficial.

Vejam-nos no bairro, conversem, perguntem sobre a festa, espreitem para dentro dos espaços onde guardam as cavacas e vejam as toneladas de doces em sacos empilhados. Durante a mordomia 2020-22 há 21 mordomos, o grupo mais jovem de sempre, muitos residentes fora da cidade.

A cavaca é um doce grande, rijo, açucarado. Tem uma forma ondulada e deve ser atirado com a concavidade virada para cima, num movimento vertical. A intenção não é magoar, embora possa acontecer. A graça está também nos artifícios que se inventam para apanhar as cavacas. No largo amontoam-se vários grupos na expetativa de serem abençoados com alguns destes doces no colo. Uns apanham as cavacas à mão, outros viram guarda-chuvas ao contrário, e há ainda quem utilize as nassas (camaroeiros). Estes últimos têm vantagem, mas para os religiosos, a cavaca tem de cair ao chão para receber a benção do beato. As senhoras também sempre tiveram uma forma expedita de as apanhar ou guardar, recorrendo aos aventais e às saias.

A Dança dos Mancos é um evento quase inacessível. Acontece dentro da capela, sem bancos. Sob o olhar atento da estátua, um grupo de jovens dança, fingindo-se de mancos e fazendo caretas. Entoam versos brejeiros, a remeter para os poderes casamenteiros do beato.

S. Gonçalo arredai os bancos

Que eu quero dançar

A dança dos mancos querem dançar

Que farão aqueles que podem andar

Ai Sim Ai Sim

Ai Sim Ai Não

Santo da Minha Alma

Do meu coração.

Ó meu rico S. Gonçalinho

Casai-me que bem podeis

Eu já tenho teias de aranha

No sítio que vós sabeis

Ai Sim Ai Sim

Ai Sim Ai Não

Santo da minha Alma

Do meu coração.

S. Gonçalo de lá de cima

É das velhas curraleiras

O Santo de cá de baixo

É das novas pescadeiras

Ai Sim Ai Sim

Ai Sim Ai Não

Santo da minha Alma

Do meu coração.

S. Gonçalo está a mijar

Três navios fez andar

Ainda lá vem um barco à vela

Para S. Gonçalo acabar a mijadela

Ai Sim Ai Sim

Ai Sim Ai Não

Santo da minha Alma

Do meu coração.

Se fordes a S. Gonçalo

Trazei-me um S. Gonçalinho

Se não puderdes com o grande

Trazei-me um mais pequenino

Ai Sim Ai Sim

Ai Sim Ai Não

Santo da minha Alma

Do meu coração

A Entrega do Ramo também acontece dentro da capela e representa a passagem de testemunho entre os mordomos que saem e os que entram, acontecendo no fim da festa. Envolve também um cortejo em que os mordomos velhos andam de mãos dadas, chegam às casas dos novos mordomos e brindam ao beato. Canta-se e retorna-se à capela. O ramo entrega-se ao altar.

Recomendações:

Ir várias vezes para o largo, quanto mais vezes forem mais cavacas apanham.

Levar um saco para guardar as cavacas.

Beber licor de alguidar na cavaca. Nunca fizemos este, mas a cavaca, como tem aquele aspeto curvo, pode fazer de copo.

Andar pelas ruas do bairro e parar junto à ria a comer uma cavaca.

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Raquel

Gosto de viajar depressa ou devagar. Gosto de conhecer pessoas, de ouvir as suas histórias, de experimentar as comidas dos países que visito. Falo pelos cotovelos e tenho uma lista de sítios a conhecer que todos os anos duplica de tamanho. Não gosto de desporto, mas de vez em quando perco a cabeça e experimento algum novo.

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