O LADO B DO PATRIMÓNIO MUNDIAL (CENTRO DE PORTUGAL)

A região centro de Portugal é muito rica em património, nem todo é material, nem todo é obra de mão humana. Sejam elas naturais ou obra do homem há material para agradar a todos. Para os mais puristas temos serras, cascatas, rios ou praias. Para os restantes temos passadiços, pontes, jardins e claro, os grandes monumentos. Os grandes monumentos da região são vítimas do seu sucesso e muito visitados, não que isso seja mau, mas para um público que gosta dum turismo menos de massas pode criar alguma desilusão. Queremos dizer que há solução, podem percorrer o lado B do património mundial UNESCO na Batalha, em Alcobaça, Coimbra e Tomar.

Alcobaça

Há três mosteiros de destaque em Portugal, o dos Jerónimos, o da Batalha e o de Alcobaça. Os dois últimos ficam muito próximo um do outro, podendo ser visitados juntos. Talvez o da Batalha seja mais famoso que o de Alcobaça, mas não podemos dizer de caras que é mais bonito. Este é um mosteiro típico da ordem de cister com a particularidade de ter na igreja os túmulos de Pedro e Inês de Castro. A visita à igreja é gratuita e possui visitas guiadas às 11 e às 16h. A entrada no mosteiro custa 6€.

E o lado B do património mundial de Alcobaça? Fácil, o Mosteiro de Santa Maria de Cós. Pode parecer fechado, mas há quem abra a porta na loja Coz Arts. Este mosteiro feminino da ordem de cister, possuía monjas com ordem de clausura. Muitas delas eram mulheres mal casadas, viúvas ou princesas que entravam no mosteiro com as suas aias. Não pensem que por se recolherem à vida religiosa que abdicavam de todas as mordomias. Isso cria no mosteiro alas, para as nobres e para as suas criadas. Rezavam 7 vezes ao dia e iam a eleições com voto secreto em favas pintadas de branco e dourado, daí a expressão “são favas contadas”.

Não esperem um monumento com o mesmo estado de conservação que o mosteiro de Alcobaça. Falamos de lado B do património mundial, pois estamos perante um monumento desconhecido pelos turistas e que se encontra em ruínas, diríamos até, em pior estado do que merece. Que isso não vos intimide, a igreja merece a visita. Devem reparar que o altar é mais elevado que o espaço dos fieis. Assim as monjas tinham sempre visibilidade.

Sobre a Coz Arts, entre Alcobaça e a Batalha fica o Juncal, terra de junco. É daqui que vem grande parte da tradição da cestaria de junco. Sabem as ceiras ou cestas de junco? Aquelas cestas coloridas com desenhos que as nossas avós tinham? Muitas são feitas na região.

As malas de junco voltam a estar na moda, e aqui há uma importância social na sua comercialização. Há modelos lindos, confessamos que não são para todos os bolsos, mas é preciso olhar com detalhe para a qualidade dos acabamentos. Estivemos a assistir enquanto se fazia uma esteira, houve até quem experimentasse. Depois a criação da mala é uma técnica de dobragem e coser bem os bordos. A vantagem de viajar com uma criança (uma das) é que é um grande quebra gelo. Falam-se em netas, saudades, em como é bom conviver com crianças e como crescem depressa.

mulher a fazer cesta de junco

Mas o vosso forte não é o turismo religioso? Não faz mal. Que tal embarcar no enoturismo? Sabiam que Alcobaça tem um museu nacional do vinho. É o maior museu do país. A Junta Nacional comprou o complexo da marca de vinhos de José Eduardo Magalhães à família. O espaço foi das adegas mais modernas da época. O Engenheiro Manuel Paixão Marques, delegado da Junta Nacional do Vinho, funda o museu nas instalações da Adega do Olival Fechado de José Raposo Magalhães. É um museu que mantém a tipologia do que era o espaço. Estamos perante uma colecção particular de objectos relacionados com vinho, desde rótulos, loiça, ferramentas, placas decorativas, são mais de 10000 objectos. As visitas são guiadas, de hora a hora das 10 às 17h, por 4€. Fecha para almoço.

Batalha

O Mosteiro da Batalha é um imponente mosteiro inacabado, ou que nunca foi devidamente terminado, mas tal como a Sagrada Família de Gaudi isso não o torna menos interessante. O Convento de Santa Maria Vitória é mandado construir pelo rei D. João I após a vitória na Batalha de Aljubarrota, e é entregue à ordem de São Domingos. À sua volta não existia nada, e é este convento que traz população às terras que o rodeiam. Tem a igreja mais alta de Portugal, para estar mais perto de Deus. Na capela do fundador temos sepultados D. João I e Dª Filipa de Lencastre. D. Duarte está sepultado nas capelas imperfeitas (a tal história do mosteiro inacabado). O mosteiro é ainda “o fiel guardião” do soldado desconhecido. Existe guarda de honra e podem assistir ao render da guarda.

O edifício levou 150 anos a construir, daí a mistura de estilos arquitectónicos (gótico, manuelino e renascentista). Custa 6€ e abre das 9 às 18h.

Ainda relacionado com o mosteiro da Batalha temos a pedreira Valinho do Rei onde foram retiradas as rochas que permitiram construir o grandioso monumento. Após o terramoto de 1755 tornou-se a recorrer às pedreiras históricas de Valinho do Rei e Pidiogo para recuperar o edifício. As pedras iam do Reguengo até ao estaleiro em carro de bois. Vale pelo simbolismo, já que estamos em região de pedreiras, as mais modernas bastantes maiores.

Propomos visitar a aldeia de Reguengo do Fetal, o lado B do património mundial da Batalha. Aqui encontrámos uma igreja e nela parte do mosteiro de Santa Maria Vitória. Já viram que louco? Um mosteiro gigante e parte dele numa igreja nos arredores. Junto à igreja nossa senhora dos remédios, de 1512, temos uma fonte de 3 nichos.

Também queremos falar da procissão dos caracóis. Já no topo da aldeia existe um santuário mandado erguer após um milagre, representado nos azulejos por Roque Gameiro. Aqui na Ermida da Senhora do Fetal acontece uma romaria noturna 9 dias após a festa de nossa senhora do Fetal (primeiro domingo de outubro). O percurso é iluminado com cascas de caracóis cheias de azeite e com um pavio, fazendo de velas. Nunca tínhamos ouvido falar de tal romaria e achámos graça aos caracóis.

Não chegámos a ir visitar, mas não podemos esquecer o placard da PAN AM, que se vê do santuário. É classificado e só há dois no país. São construídos pela fábrica Aleluia (Aveiro). O segundo está na Oliveirinha.

Na região fica também uma gruta, no trilho do Buraco Roto. O trilho é curto, a meio encontramos uma cascata (só em época de chuva). A gruta tem várias galerias, mas nós percorremos apenas uma curta parte. Por sugestão do Danilo, nosso guia, apagámos as lanternas para desfrutar do escuro e do silêncio. Achámos graça ao mosquitos cristalizados que se encontram no interior.

Tomar

A terra dos templários é uma viagem no tempo. Tomar atrai por duas grandes características, fazer-nos regressar ao tempo da ordem de Cristo, e a festa dos tabuleiros de 4 em 4 anos, mas que deixa marcas constantes na cidade.

O Convento de Cristo é do século XII, edificado em terrenos cedidos à ordem do templo como agradecimento à participação na conquista de Santarém e Lisboa. Quando Roma extingue a ordem D. Dinis restrutura-a e chama-lhe Ordem de Cristo. Há vários pontos de destaque neste convento, a Charola e a Janela do Capitulo, obra feita a pedido de D. Manuel. Não vos vamos maçar com detalhes, mas façam uma visita guiada para perceberem a simbologia escondida. As visitas guiadas podem ser noturnas.

A cerca conventual ou Mata dos 7 Montes faz parte do convento. Aqui podem fazer trilhas, passear pelos jardins, ir em busca da Charolinha ou sentarem-se a namorar. O convento pode ser visitado por 6€. Por 15€ podem-se visitar os mosteiros de Alcobaça e Batalha juntamente com o Convento de Tomar durante 7 dias. Do complexo fazia ainda parte o Aqueduto de Pegões que ainda não fomos conhecer.

Voltando a falar da Festa dos Tabuleiros, o cortejo dos rapazes acaba na mata, e os tabuleiros ficam expostos na mata para serem vistos de sábado para domingo.

A festa dos tabuleiros acontece de 4 em 4 anos, como já dissemos. As mulheres constroem um tabuleiro do seu tamanho segundo regras apertadas e é transportado à cabeça. O desfile é de 5km e haverá poucas festas no país onde as ruas se encham como acontece em Tomar. As ruas da cidade são enfeitados com flores de papel, se pesquisarem na internet verão como são verdadeiras obras de arte.

Se gostam de ver o trabalho dos artesãos têm de visitar a antiga moagem, recém-inaugurada como Moagem-Fabrica das Artes. Aqui encontram não só as antigas máquinas da moagem como três pisos de ateliers de artistas. Nos pisos mais altos terão uma vista espetacular para o convento e mata.

Sabiam que Tomar foi das primeiras cidades com electricidade em Portugal? Hoje a central eléctrica é um núcleo museológico.

Ainda temos a sinagoga, do século XV. Após a expulsão dos judeus serviu de prisão. Hoje tem o Museu Luso-Hebraico de Abraão Zacuto.

Coimbra

E é com a comunidade judaica que queremos começar Coimbra. O antigo Colégio das Artes, depois transformado em Pátio da Inquisição é agora um museu municipal. Ali aprendemos mais sobre a história dos judeus na cidade. A cidade ainda guarda as marcas da velha e da nova judiarias, da fonte dos judeus e o provável local de banhos de purificação.

E é assim que começa o lado B do património mundial de Coimbra, deixando mais à margem a cidade universitária, e os seus 32 edifícios classificados entre a Universidade, a Alta e Sofia. Percebemos que neste espaço da Inquisição muito mal se fez, não se torturou ninguém, mas não se tratou bem, deixando as pessoas morrer por falta de condições. Nem só os judeus foram julgados aqui, também os homossexuais, os acusados de bruxaria e adultério.

Há um edifício classificado que não queremos ignorar, pelo que esconde nas suas fundações. O criptopórtico que está sob o Museu Nacional Machado de Castro.

Até dia 6 de novembro é possível visitar a exposição temporária Aeminium- Coimbra cidade há dois mil anos”, na Sala da Cidade. Aqui podem aprender mais sobre o criptopórtico e o fórum que sustentava. Vale a pena, pois mostra como Coimbra, antes Aeminium, mantém há mais de dois mil anos o estatuto de cidade.

O Museu Nacional Machado Castro tem nele vários museus, aliás, conjuga nele várias peças que em Lisboa estariam espalhados pelos diversos museus da capital. Temos as caixas de rapé, como no Museu do Oriente, o coche, que estaria no Museu dos Coches, azulejos como no Museu do Azulejo, a tapeçaria que se enquadraria mais a norte no Museu de Lamego e a arte que em Lisboa estaria no Museu de Arte Antiga. Para além disso tem ainda um belo terraço com vista sobre a cidade. Custa 6€.

Apesar de falarmos em lado B, não ignorem o património classificado da cidade. Devem visitar a Universidade e a Biblioteca Joanina. O bilhete combinado da Biblioteca, da Capela de São Miguel, do Laborário Chimico e do Palácio Real custa 12,5€. O paço das escolas é de acesso livre. Devem também ganhar coragem para subir os 180 degraus que vos levam até à Torre da Cabra. Coimbra é cidade dos estudantes, por isso se tiverem a sorte de se cruzarem com uma tuna, parem para os ouvir.

365 dias no mundo estiveram de 3 a 6 de setembro de 2021 a convite do Turismo do Centro

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Raquel

Gosto de viajar depressa ou devagar. Gosto de conhecer pessoas, de ouvir as suas histórias, de experimentar as comidas dos países que visito. Falo pelos cotovelos e tenho uma lista de sítios a conhecer que todos os anos duplica de tamanho. Não gosto de desporto, mas de vez em quando perco a cabeça e experimento algum novo.

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